sábado, 11 de junho de 2011

Uma alcoviteira* me leva ao teatro


Quando voltava pra casa há uns 15 dias atrás, comprei na rodoviária de Brasília o livro A Celestina de Fernando de Rojas.  Sempre me interessei em clássicos da literatura e este andava chamando minha atenção ainda pelo fato de já ter lido artigos de Roger Chartier que analisava protocolos de leitura a partir desta obra. Infelizmente a versão de bolso que comprei não veio com o comentado prefacio do autor, mas a leitura do livro é uma delícia.
Terminei de ler ontem A Tragicomédia de Calisto e Melibéia – como também é conhecida a obra - que me deixou, além de certa saudade, uma pulga atrás da orelha. Como pulgas parecem nunca andar sozinhas, uma inquietude vai me levando a outra e mais outra e mais outra....
Durante a leitura do livro percebi falas enormes e mudanças de cenários com certa rapidez; então fiquei pensando como seria difícil encenar uma peça assim. Mas A Celestina é um desses livros que não cabem em rótulos quanto a estilo: pode ser considerado teatro ou novela. Só que – lá vem outra pulga! – levando em consideração o tempo do texto (Espanha – início do século XVI), quem é que aguentaria sentar e ouvir alguém declamar 16 atos? - ou 21; já que existem duas versões.
Antes de ir pesquisar uma resposta para essas questões, Fernando de Rojas e as digníssimas pulgas me levaram para outros lugares: para o teatro grego, o romano, e... E o teatro atual. Sim, o teatro atual!
Alguns dos grandes clássicos da literatura foram escritos para serem encenados. Não é preciso ser nenhum gênio para saber que Ésquilo, Sófocles, Aristófanes, Shakespeare, entre outros que Eu Ignorante não me lembro, ou não sei dizer, escreveram para o teatro. Mas o tempo passou: veio o helenismo, veio Gutemberg, agora veio até o Google Books. Todos vieram e trouxeram a valorização destes autores dramaturgos bem como a possibilidade de leitura do que antes era para ser visto. E eu acho isso ótimo!
Nunca fui ao teatro assistir Prometeu Acorrentado; Édipo Rei; As Vespas; Sonho de Uma Noite de Verão. Mas já li estes textos que citei. E clássico é clássico e ponto. Já que não dá pra vivenciá-lo no teatro como o autor havia elaborado, veremos a montagem que o pessoal de hoje está fazendo; iremos ver a adaptação do cinema; e o melhor: vamos ler o livro e apropriar por nossa conta e risco, do nosso jeito, numa operação de caça furtiva como definiu Michel de Certeau.
Sim, mas... e o teatro atual onde está mesmo? Eu não sei e é aí que está a questão. Os textos de teatro moderno que eu conheço – por ouvir falar – são os de Ariano Suassuna, Chico Buarque e Nelson Rodrigues. Todos brasileiros. Todos escritos quando eu ainda nem era nascida.
Minha cidade não tem teatro, mas eu quero saber o que está sendo desenvolvido nos palcos do Brasil e do mundo. Quero saber quem é o grande dramaturgo da atualidade. Quero saber se existe uma nova Celestina por aí. Então... não se publica mais teatro que não seja os já clássicos? É feio ler teatro contemporâneo ou isto é mais uma ignorancia minha? Não confio nesta história de que o que se produz hoje é tudo porcaria, que o melhor seria ter nascido em sei lá quando, etc. Na minha (não tão santa) ignorância aprendi que sou muito sortuda de estar vivendo o século XXI. O século da possibilidade de encontrar com certa facilidade o que acontece no submundo. Sem desistir dos clássicos eu vou atrás do novo. A internet será minha Celestina.

La Celestina - Picasso [1903]
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* “A notoriedade da personagem Celestina acabou dando título à obra e fez substantivo na língua espanhola, significando alcoviteira” VASCONCELLOS, Luiz Paulo. La Celestina. IN: ROJAS, Fernando de. A Celestina: a tragicomédia de Calisto e Melibéia. Trad. de Millor Fernandes. Porto Alegre, RS: LP&M, 2008. [pocket]

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